



|
Educar nos tempos de hoje |
|
Educar nos tempos de hoje Texto retirado do site www.joseouteiral.com José Outeiral
_____________________________________________________________________
Palestra proferida no Encontro Temático EMEI/CEI. Sexualidade infantil, gênero e diversidade, em 9 de setembro de 2004 (Secretaria Municipal de Educação/Prefeitura de São Paulo). Publicado no livro Sexualidade começa na infância (Ed. Casa do Psicólogo, 2007, pgs 27-50. São Paulo), organizado por Maria Cecília Pereira da Silva. Material transcrito diretamente da gravação e não revisado. _____________________________________________________________________
A escola como espaço de promoção da saúde e prevenção da doença
A escola hoje tem, hoje, a necessidade de ser um espaço que necessariamente deve envolver promoção da saúde e prevenção da doença. É possível que muitas crianças e adolescentes encontrem, na escola, a segunda chance - e talvez a última - de conhecer um ambiente favorável ao seu desenvolvimento: a primeira sempre será a família. Quem não aprender alguma coisa de português ou de matemática esse ano, poderá fazê-lo no próximo ano. Entretanto, estar envolvido com a violência, com questões das drogas, com a possibilidade de se envolver com as doenças sexualmente transmissíveis e com a gravidez precoce, está com um problema para hoje, imediato, e nesse sentido, a tarefa do professor é extremamente importante na vida dessas crianças e desses adolescentes.
O espaço que nossas crianças e adolescentes habitam
Existem estatísticas, que podem ser facilmente acessadas nos Indicadores Sociais do IBGE e que nos revelam que no último censo, realizado há 2 anos, encontramos como causas de morte entre os nossos jovens os seguintes fatores: o homicídio como a primeira causa; a segunda causa são acidentes; a terceira causa é o suicídio e só depois começam as assim chamadas doenças físicas e orgânicas. Ou seja, as três primeiras causas de morte dos jovens do nosso país se devem ao que nós chamamos de “causas extremas ligadas à violência”. Estes achados nos colocam frente a questões que todos aqueles que trabalham com crianças e adolescentes devem refletir sobre elas de uma maneira bastante profunda. Não tenho a menor dúvida que os educadores terão um papel fundamental na prevenção da doença e na promoção da saúde. No penúltimo censo, feito há 12 anos, o homicídio, que hoje é a primeira causa, era a quinta causa de morte. Isso significa que o homicídio, em 12 anos, se deslocou da quinta posição para a primeira posição. O que aconteceu? Nós tivemos na sociedade transformações muito profundas, muito intensas. Podemos pensar, por exemplo, na nossa população. Na década de 1970 (do século passado) uma música, comemorando o campeonato mundial de futebol, que o Brasil havia vencido e que tinha como refrão mais ou menos o seguinte: “Noventa milhões em ação...”. Hoje somos cerca de 180 milhões de habitantes, Eu sou mais velho que a cidade de Brasília, que tem 45 anos. Se pensarmos que determinadas cidades como Campo Grande, Londrina, com quase 1 milhão de habitantes, não têm ainda 70 anos, somos levados a constatar o fato de que, em curto espaço de tempo, houve uma grande migração para as grandes metrópoles, que não tiveram um verdadeiro desenvolvimento. Um médico caracterizaria o crescimento destas metrópoles como um tumor, ou seja, um crescimento desordenado, desorganizado e anômalo. Enquanto nas pequenas cidades ou no interior existe solidariedade, uma rede social de amparo, paradoxalmente, no grande centro urbano, o que existe na multidão é isolamento e desamparo. A família “ampla” ou “patriarcal”, com vários adultos, por vezes inseridos no mesmo modo de produção e habitando próximos uns dos outros, deu lugar à família “nuclear”, a família dos grandes centros urbanos, pequeno grupo familiar no qual um terço dos pais não está mais em casa e que a mãe tem que educar e prover o sustento de seus filhos sozinha.
As transformações nas últimas três décadas: nas famílias, nas crianças e adolescentes
Desde 1971, quando inicie meu trabalho como medico psiquiatra, pude observar duas importantes transformações: uma experiência de mais de três décadas. A primeira destas transformações ocorreu com as famílias e depois com as próprias crianças e adolescentes. Na década de 70, quando não havia ainda acontecido essa grande migração para os centros urbanos, nas pequenas cidades ou no campo havia uma estrutura familiar que era uma rede ampla de apoio, onde na eventualidade da falta, da dificuldade de um dos pais, sempre havia um tio, um avô, um amigo, um padrinho que fazia cargo do cuidado da criança: a família “patriarcal”. Quando há a migração para os grandes centros urbanos, nós encontramos uma pequena família “nuclear”, distante do grupo familiar de origem. Assim é que, exatamente no fim dos anos 60, início dos anos 70, crianças e adolescentes começam a chamar os adultos, em geral, e os professores, em particular, de “tios”. Eu sei que o Paulo Freire escreveu um breve texto, dizendo que “professora não é tia”: ele queria valorizar o trabalho do professor. Mas a minha forma de compreender o fato, de que eles – crianças e adolescentes – desde o fim dos anos 60, nos chamam de “tios”, é que eles têm necessidade de recompor uma rede familiar mais ampla, que lhes dê segurança, escolhendo parentes no vizinho, no pai de um amigo ou no professor ou na professora. Cerzindo o tecido social esgarçado, construindo novas “relações de parentesco”, não baseadas na linha familiar, me arriscaria a dizer que, na passagem do século, os educadores não só serão chamados de “tios”, mas as crianças e adolescentes serão levados também a buscar neles funções parentais, de pais e mães. Porque tanto na rede privada como na rede pública das escolas, os pais, muitas famílias, na sua perplexidade, nesse mundo de tantas mudanças, terceiriza para a escola os cuidados parentais, assim como uma empresa terceiriza segurança, limpeza e alimentação. Isso exige de nós uma discussão mais profunda. Na última década, questões novas em relação à família surgiram. Se, nos anos 60-70, o professor, que tinha entrado na sala de aula, imaginava “um tipo de família” para seus alunos, hoje, ele terá de lidar com a diversidade, com a singularidade, com o fato de que naquela sala de aula seus alunos vêm de diferentes estruturas familiares, de distintas culturas familiares. Um exemplo muito claro é quando o filho da Cássia Eller, com a morte da cantora, não ficou sob a guarda do avô com o qual tinha laços de sangue, mas foi criada uma nova jurisprudência, que deixou a guarda da criança à companheira de Cássia Eller. Foi reconhecida na justiça, através desta jurisprudência, uma nova configuração familiar. Há uma transformação grande. Por exemplo, o apresentador de TV, Gugu, resolveu ser pai, e escolheu uma mulher que provavelmente cuida bem de crianças, uma pediatra. Ele mora num lugar e ela no outro e Gugu escreveu um livro sobre paternidade, que é um sucesso nas bancas. A minha conterrânea Xuxa, como Gugu, é adulta, se sustenta, resolve ter um filho e este é um direito que reconhecemos. Ela escolheu o homem que lhe pareceu, obviamente, ser bem apessoado, teve o bebê e resolveu depois de algum tempo, separar-se do pai e cuidar da criança com o auxílio de Marlene Matos. Quando houve o “espetáculo” (a sociedade contemporânea busca o “espetáculo”) do primeiro aniversário da menina, o pai compareceu para tirar fotos para uma revista de variedades . Não me arriscaria a dizer que crianças nascidas destas novas configurações familiares serão crianças de risco. Isso que nos produz surpresa, ansiedade, riso, escárnio, se deve às nossas dificuldades de lidar com as novas circunstâncias. A diversidade e a singularidade vão se colocando e nós não sabemos ainda como trabalhar com isso. Acredito que, assim como em Porto Alegre, na minha cidade, como em São Paulo, nas periferias, quem cuida das crianças é, muitas vezes, a avó. Porque os pais são adolescentes, ou não estão em casa, ou estão vivendo a adolescência. Mas não só as avós na periferia cuidam das crianças; outras circunstâncias fazem com que os pais deleguem os cuidados parentais à escola. Mas não mudou só a família. Nós somos obrigados hoje a pensar em famílias, pois cerca de 1/3 dos homens não está em casa, como no ambiente familiar. Fisicamente o pai não está presente. Mas nós temos que imaginar que a própria infância e a própria adolescência se transformam, o que traz questões extremamente importantes para a escola. A criança sempre existiu, mas o conceito “infância”, como período de desenvolvimento, como necessidades e direitos específicos, tem cerca de 200 anos. Foi uma grande conquista da modernidade o conceito de “infância”. Acontece que nós, na sociedade contemporânea, estamos, segundo vários autores, “des-inventando” a infância. E é extremamente importante que a escola lute pela preservação desse conceito. Nesse desenho vou colocar parte desse processo. Imaginem vocês que a adolescência é o período constituído entre os 10 e os 20 anos, segundo a Organização Mundial de Saúde, ou entre os 12 e 18 anos, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Nós temos a infância, a adolescência e o mundo adulto. Se a infância , esse conceito tão importante, tem cerca de 200 anos, é possível que a adolescência tenha começado a ter uma existência mais facilmente identificada na primeira metade do século passado, correspondendo, entre outras coisas, ao grande crescimento das cidades e ao ingresso da mulher no mercado de trabalho, no período pós-guerras (1914-1918/1939-1945), dentre inúmeros outros fatores. A outra questão a ser comentada, a partir de minha experiência dessas três décadas trabalhando com crianças. Adolescentes e famílias, é que: na década de 1970 alguém se tornava púbere (transformações físicas – puber vem de pêlos) e depois ficava adolescente. Na década de 1980, começou um fenômeno distinto: a puberdade e o fenômeno psicológico-social adolescência ocorrendo juntos. Na última década, a observação é muito singular: algumas crianças não são púberes ainda, têm 7, 8, 9 anos, e têm a conduta adolescente. A adolescência é um fenômeno psicossocial. Ou seja, se vocês esperam encontrar, hoje, conduta adolescente, como diz o ECA, depois dos 12 anos, estão muito enganados; vão encontrar adolescentes antes dos 10 anos, não púberes ainda. Ou seja, a adolescência começa a invadir os anos da infância e vai invadindo particularmente os anos escolares, trazendo todo o turbilhão adolescente para estes anos, de tal forma que vai produzir particularmente dois tipo de dificuldades: de aprendizado e na forma de constituição de uma ética e de uma moral. Quando nós trazemos a sombra da adolescência, o turbilhão adolescente sobre a infância, nós trazemos diversas questões para uma mente ainda não habitada a lidar com isso. E esse turbilhão vai interferir nessas duas áreas. Como isso se dá? Eu poderia listar muitas maneiras em que nós começamos a construir a “des-invenção” da infância. Uma delas é pela erotização genital precoce. Nosso problema não é só a prostituição infantil. A nossa cultura, como um todo, promove a erotização genital de crianças. Por exemplo, há poucos dias eu trabalhava com uma mãe cuja filha de 5 anos, freqüentando pré-escola, não queria ir à aula porque as coleguinhas de 5 anos iam para a escola de sutiã e ela não tinha ganhado um. Pois é, existem sutiãs hoje para meninas de 5 anos... É difícil encontrar uma sandália para uma menina de 8, 10 anos que não tenha salto, desaconselhável por ortopedistas, mas sobre a qual a cultura incide fortemente. Ao assistir um desfile de “moda”, encontraremos meninas de 12 anos, vestidas de uma forma extremamente insinuante e erotizada. Há pouco tempo, havia um programa de TV que apresentava meninas muito pequenas, de 5, 6 a 7 anos, dançando a “dança da garrafa”. A Promotoria e o Conselho Tutelar demoraram a intervir, proibindo essa parte do programa. Todos nós estamos envolvidos nessa discussão, no esclarecimento dessas questões, coniventes ou não. Um segundo ponto, com relação à “des-invenção” da infância, é o fato de que nós vivemos numa sociedade extremamente voltado ao consumo e que descobriu nas crianças um grande mercado consumidor que é capaz de influenciar inclusive o consumo dos pais. Como tornar uma criança uma grande consumidora? Atingindo um ponto fundamental da infância, que é o “brincar”. A sociedade de consumo, e nós somos parte ativa dessa sociedade, incluindo escola, começa a “des-inventar” o brincar. O importante é comprar o brinquedo. O prazer está em comprar o brinquedo. Comprado o brinquedo, há um tédio muito grande do qual só se escapa comprando um novo brinquedo. A “des-invenção” do brincar é muito clara. Se nós prestarmos atenção em determinados jogos ou em certas brincadeiras infantis, veremos que elas estão sendo substituídas por outras. Por exemplo, peça a uma criança para fazer uma pipa. Ela corta a taquara (vareta) em quatro, faz a armação de cordão, papel amanteigado, e na hora de colar o papel surge um grande problema, não tem cola! Como colar? As crianças de hoje são incapazes de ir até a cozinha e fazer um grude com água e farinha para colar a pipa. Costumo brincar dizendo que quem não sabe fazer grude é um sério candidato a uma vida sem cidadania. Brincar é fundamental e vou retornar a essa questão logo a seguir. Vou dar um outro exemplo: quando eu era menino, aos 9 anos, ainda no curso primário como se chamava, não havia rádio portátil. Imagine a revolução tecnológica desses últimos anos. Quando o rádio portátil surgiu, era algo muito caro. Mas circulava na sala de aula um esquema, como comprar um cristal, um resistor, um alto-falante e construir um rádio – chamava-se “galena”. Os meninos e meninas, as crianças, faziam o rádio. Eram capazes de brincar com uma bola feita de meias usadas. Hoje, se não houver uma bola, do pentacampeonato, às vezes não sai jogo. O jogo do computador, por exemplo, não é o verdadeiro brincar. Brincar é sinônimo de criatividade, espontaneidade. No computador alguém se torna, apenas um exímio repetidor, ou seja, quanto mais eu repito habilmente, passo para outra fase, porque toda criatividade está tolhida pelo “soft” do jogo, que já vem pronto. É função da escola preservar o brincar. Então, não só há uma “des-invenção” da infância, mas observamos outro fenômeno que atrapalha de forma significativa esses dois momentos evolutivos fundamentais, primeiro a infância e depois a adolescência, que é a “des-invenção” do adulto. A adolescência não só aborda, invade parte da infância, como começa a invadir a própria vida adulta. Existe uma palavra que consta no dicionário que se chama “adultescer”, que é uma junção de adulto com adolescente, e que significa que nas grandes cidades ocidentais o objetivo de muitos adultos é, ao menos, parecer adolescente. Com isso, não só “des-inventamos” a infância, mas começamos a des-inventar o adulto. Existem professores que ficam tão amigos de seus alunos, mas tão amigos, que passam a ser “adultescentes” e não mais adultos. A criança e a escola precisam da preservação do adulto, do pai e da mãe. Amigos nós temos muitos, mas pai ou mãe só temos um. Pai e mãe pressupõem amizade, mas os pais que são muito amigos dos seus filhos, às vezes, têm nisso uma forma de abdicar de sua função de adulto, pois exige confronto, conflito, colocação de limites. Isso é tão sério que, por vezes, eu vejo na pré-escola essa erotização genital precoce. Pais de crianças da pré-escola comentando como o seu filho é namorado da sua coleguinha, que tem às vezes 3, 4, 5 anos. E os pais dizem: O meu filho “ta namorando a fulaninha”. E os pais da “fulaninha” corroboram essa fantasia. Isso é muito mais uma projeção nas crianças de uma vida insatisfatória sexual dos adultos que começam a erotizar seus filhos muito precocemente, distorcendo a verdadeira concepção saudável do que é sexualidade humana. Sexualidade humana pressupõe vários elementos ligados à maturação e ao desenvolvimentos e, quando nós antecipamos, de maneira demasiadamente precoce, alguma dessas etapas, o indivíduo se torna incapaz de lidar com a questão que lhe é trazida. Não bastante muitos adultos “adultescer”, alguns são “adultkids”, ou seja, adultos cujo objetivo é ser criança (Caderno Mais da Folha de S. Paulo, agosto de 2004). Ou seja, como se não bastasse abrir mão da posição da identidade de adultos, buscando parecer adolescentes, alguns passam a agir como se eles próprios fossem crianças, necessitando de limites e se portando como se fossem crianças pequenas. Tudo isso produz na sala de aula fenômenos muito interessantes que a sociedade de consumo, rapidamente, trata de aproveitar para vender algum de seus produtos. Às vezes, na sala de aula, lá no fundo, tem uma criança que anda de um lado para o outro, com dificuldades para permanecer numa tarefa, e, por vezes, vem à mente do professor um diagnóstico muito freqüente: transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, e uma substância, a Ritalina. Essa medicação, a Ritalina, tem aumentado muito suas vendas, tanto que nós psiquiatras brincamos: é criança, então tem transtorno de déficit de atenção; se é adulto, transtorno bipolar; se é velho, Alzheimer. Sempre existe um rótulo. É a medicalização da vida. Mas essa criança, assim como a maioria absoluta delas, não sofre do assim considerado Transtorno de Déficit de Atenção; sofrem, sim, de falta de atenção dos adultos em relação a elas. Falta atenção dos pais em casa para com a criança e falta um acolhimento da escola. Através dessa conduta, a criança ainda busca, com esperança, que alguma atenção, e não uma medicação, lhe seja dada. O Transtorno de Déficit de Atenção é um nome novo para que o professor Lefèvre, da USP, há mais de 30 anos, descreveu como Disfunção Cerebral Mínima, com os mesmos procedimentos diagnósticos e o mesmo tratamento. Então, modificou-se a embalagem do produto para vendê-lo com mais eficácia: uma reinvenção da roda. O que eu proponho é que nós temos que prescrever “atenção” para essas crianças e um cuidado muito grande para evitar medicalizar ou homogeneizar comportamentos com remédios, tanto do ponto de vista médico, psiquiátrico, como psicanalítico.
O que a escola pode fazer para se tornar um ponto de promoção da saúde e prevenção da doença?
1) Sustentar o sonho, a utopia e o desejo Em primeiro lugar, a escola deve sustentar o sonho, a utopia e o desejo. A escola, de certa forma, seguindo a idéia da sociedade industrial, expulsou o prazer e a alegria de aprender da sala de aula. Por vezes, se confunde seriedade no trabalho com exclusão da alegria e do prazer. E, muitas vezes, os próprios professores não têm uma “paixão” suficiente para educar e uma alegria suficiente de estar em contato com seus alunos. A escola tem que resgatar a capacidade de acreditar numa utopia. A utopia não precisa acontecer, a gente tem que deseja-la: a utopia do respeito pelo outro. Se o John Lennon disse que “O sonho acabou”, ele estava nos avisando, dentre várias coisas, de que a escola é um lugar que tem que sustentar o sonho. A escola tem que ser algo mágico, muito além da fórmula de Báskara, de Dom Casmurro, do present continuous, dos afluentes do rio Amazonas: é o local do sonho, da utopia e do desejo.
2) Brincar Em segundo lugar, brincar. Brincar vem do latim vínculum, vínculo. Quando, no nosso idioma, o v é trocado pelo b, lá pelo século XVI, vínculo se transformou em brinco, aquele que prende na orelha, e originou o brincar. Quando alguém brinca, não é só expressão de desenvolvimento psicomotor. Quando alguém brinca, cria um vínculo. Onde se brinca, a droga entra com mais dificuldade. Quando se brinca, a violência tem mais dificuldade de se impor. O brincar é a primeira posse da cidadania. A primeira assunção da cidadania não é quando se vota aos 16 anos. A criança que brinca verdadeiramente começa, então a se tornar cidadão. Cito um exemplo: no meu Estado, há uma multinacional, cuja sede é em Porto Alegre, e o setor de recursos humanos dessa grande siderúrgica leva seus gerentes para ensiná-los a brincar em seminários com corridas de saco e jogos de subir em árvores. Por quê? Porque faltam criatividade e espontaneidade em seus funcionários. A escola pode criar esse espaço de brincar, não para que eles passem a trabalhar para as grandes indústrias. Absolutamente. Mas para que eles construam e possuam cidadania. E os professores também vão ter que re-aprender a brincar.
3) Pensar Terceiro lugar, pensar. A escola é o local onde se pode ensinar a pensar. Os jesuítas começaram a ensinar os curumins 50 anos depois de descoberto o Brasil. O José de Anchieta começou aqui em São Paulo a ensinar aos curumins o latim. Lá em Porto Alegre existe um colégio, o Colégio Anchieta, onde um grande outdoor em frente diz assim: “Esta escola ensina a pensar. Colégio Anchieta”. Os jesuítas trabalham na educação há tanto tempo e acreditam que as crianças chegam na escola sem pensar? Exatamente! Tem muita gente que passa pela vida sem nunca ter pensado. Sabe o endereço, sabe o CPF, sabe o nome da mãe, o nome do pai, talvez, se orienta, trabalha. Entretanto, nunca pensou ou não pensa com freqüência. Pensar significa reflexão, crítica. Ele repete, como no jogo de computador, quanto mais repete passa a um outro nível o jogo. Mas só como repetidor. Pensar é extremamente difícil. Pensar é perigoso. Vou contar uma pequena história para vocês de como pensar é perigoso e surpreende o próprio pensador. Imaginei que essa história de Monteiro Lobato: a história é minha. A história é assim: Era uma vez uma pequena cidade do interior, com um padre bem velho, em que os fiéis rezavam só repetindo uma ladainha. Eles rezavam rapidamente “Ave Maria, cheia de graça...” Um dia, morreu o padre velho subitamente. Mandaram um padre novo da capital. O padre novo chegou, começou a missa e eles começaram a rezar rapidinho a Ave Maria. Então, o padre novo disse: Parem com isso! Rezar, religare, nós vanos pegar cada frase da oração e vamos pensar sobre ela. E assim rezaram. À noite, uma beata estava sozinha, se aqueceu embaixo das cobertas e pensou: Vou rezar que nem o padre novo ensinou. Aí ela pensou Ave, e veio uma imagem em sua cabeça que a assustou muito. Quando ela disse Ave, ela pensou numa galinha. Ficou ansiosa, mas resolveu seguir adiante. Cheia de Graça. Aí ela se assustou muito, porque viu a imagem de um galo e várias galinhas. A beata estava nervosa e aí teve um terceiro pensamento que a apavorou, ela pensou: Ainda bem que esse padre velho morreu e agora temos um padre novo e bonito. Moral da história: primeiro, quando nós pensamos, somos surpreendidos pelos nossos pensamentos; segundo, nós nos assustamos com os nossos pensamentos; terceiro, todo o pensamento é uma transgressão; e quarto, é fundamental pensar.
4) Preservar o conceito de infância e a existência do mundo adulto
Uma outra função da escola é preservar o conceito de infância e a existência do mundo adulto. Uma cartografia fundamental: sendo o conceito de infância uma “conquista” da modernidade. Uma escola pressupõe não apenas um grupo de crianças ou um grupo de adolescentes; a escola pressupõe a existência de adultos. Não de “adultescentes” ou de “adultkids”, mas de adultos que são capazes de dizer não e assumir suas responsabilidades como adultos. Aprendendo com as crianças que, inicialmente, dizem não antes do sim, nós temos que protegê-las, estabelecer limites. Limite não é bater na criança nem humilhá-la. Limite é proteger, permitir o viver criativo. Estar vivo não é sinônimo de saúde. Saúde é o viver criativo, que inclui a agressão, que inclui a transgressão, que inclui o questionamento, que inclui a espontaneidade e a criatividade. O tema da “des-invenção” da infância ocorre na sociedade contemporânea, que alguns chamam de alta modernidade e alguns autores franceses, especialmente, de pós-modernidade. Como falar de pós-modernidade em um país que nem é moderno? Concordo plenamente com Sérgio Rouanet quando ele coloca esta questão. Cabe a sociedade, a família e à escola lutar pela preservação da infância. Acredito que é fundamental incluir esta tarefa do brincar ou a alegria nas atividades pedagógicas. É essencial a introdução de técnicas pedagógicas que incluam verdadeiramente o brincar, inclusive para que a “ausência” do brincar não se constitua numa das causas de evasão escolar. A escola, num sentido amplo, é “chata, repetitiva e bolorenta”. A formação dos educadores mantém como marcos referenciais a formação dos anos 70, 80, talvez 90, para crianças do século XXI. O que nos instrumenta na graduação para lidar com esse personagem que freqüenta as nossas salas de aula hoje? Imaginamos que virá um Pedrinho, do Monteiro Lobato, menino da modernidade, que respeita o outro e acredita no seu país. Não, quem vem para sala de aula é uma mistura de Pedrinho do Monteiro Lobato com Luke Skywalter, o adolescente de Guerra nas Estrelas. Na verdade, temos um Pedrinho Skywalter. Isso traz uma dificuldade importante, para o que não temos respostas. Aliás, vale lembrar que o pior que pode acontecer a uma boa pergunta é uma resposta “definitiva”. A função do professor não é responder. A função do professor é despertar a curiosidade e orientar a busca de resposta em cada um dos alunos.
5) Matricular os pais na escola Por último, destaco a importância da integração dos pais na escola. É fundamental que a escola mude a sua atitude em relação aos pais. A escola brasileira tem uma tradição complexa; Gilberto Freire escreve sobre isso no Casa Grande e Senzala. Os jesuítas pegavam as crianças e as separavam de suas famílias, levando-as para as escolas jesuítas. Afastavam os pais das crianças, e nós mantemos, ainda hoje, essa tradição de, por exemplo, só chamar os pais às escolas quando alguma coisa de ruim está acontecendo. Cada vez que um dos meus filhos chegava com um bilhete da escola, eu já sabia: alguma coisa ruim aconteceu. A comunicação que a escola tanta estabelecer com os pais não era de integração de uma tarefa, a educação. Mas, ao contrário, era uma reclamação, uma crítica, uma observação que só produz angústia nos pais. Talvez fosse desejável que, quando os pais fossem matricular o filho na escola, preenchessem uma ficha de matrícula. E deveria haver um conselho de classe para o qual os pais pudessem trazer as questões que observassem em seus filhos, em suas casas, e discuti-las com o que observa o professor em sala de aula. Essa integração com os pais pude constatar na declaração de um homem, que certamente não tinha mais do que cinco anos de estudo, e era um líder da comunidade: “Não sei porque as escolas (e as escolas do município de Porto Alegre são muitos boas, têm estádios cobertos, refeitórios, etc.) ficam fechadas no fim de semana e as crianças te que brincar na rua. Por que a escola tem que funcionar das 7h30 da manhã às 6h da tarde e não funciona sábado e domingo? Talvez no pátio da escola pudesse ter churrasqueiras para as famílias organizarem churrascos”. Os pais queriam entrar e se integrar a escola. Esse mesmo homem ainda acrescentou que na comunidade dele haviam coletado R$ 200,00 para alugar um salão da igreja para uma festa de 15 anos, e perguntou: “Por que não se faz que nem em filme americano onde as festas dos adolescentes acontecem principalmente dentro do estádio da própria escola?”. É necessário atualizar a formação e a estrutura curricular para o novo século. A nossa escola repete a exclusão, possui muros que a afastam da comunidade. Nós precisamos pensar formas de poder estabelecer canais de comunicação mais efetivos com o grupo familiar. Tornar a escola não só mais atrativa como também mais atualizada.
Sobre os limites A erotização sob a ótica de “limites” é um tema importante para todos nós, especialmente para a escola. É necessário que possamos saber que ninguém nasce com limite. Limite é uma coisa que se obtém no contato entre mãe e bebê. A mãe, quando toma o seu bebê nos braços, apresenta a primeira impressão do limite. Se algum de nós tiver uma ansiedade e alguém nos pegar na mãe, haverá uma tranqüilização. Por que um abraço acalma o desespero? Por que o abraço ajuda no desespero? O abraço não precisa ser tocar, pode ser escutar ou olhar. Abraças com o olhar, com a escuta. Porque quando alguém em desespero é abraçado, lança mão de uma memória inconsciente, de um passado onde uma mãe o abraçava, e isso o tranqüiliza. É possível que muitas crianças na sala de aula não tiveram essa experiência suficiente com suas mães. As crianças que não tiveram este abraço inicial, quando abraças sentem medo, desconfiança. Mas é fundamental esse primeiro momento. Podemos abraçá-la com o olhar e a escuta. Uma vez fui a um congresso no Uruguai num avião velho da Pluna, uma companhia uruguaia que estava em falência. O piloto entrou combinando com as aeromoças à noite em Montevidéu. Pensei comigo: estou em dificuldade nesse avião tão velho. Quando ele foi aterrissar no aeroporto de Montevidéu, onde sempre venta, deu uma “tesoura de vento” e ele teve que arremeter de novo. A sensação é de que o avião ia cair. Na fileira ao lado da minha, estava, ma janela, um colega meu, um homem adulto, psiquiatra. Na carreira do meio estava a esposa dele, e, na cadeira do corredor, um jovem estagiário bem jovem. Eu estava do outro lado. Quando o avião começou a tremer, pegou a mão de sua mulher e o estagiário perguntou: “doutor posso pegar a mão de sua esposa ?”. Pois bem, dois homens adultos acreditavam que pegando a mão de uma mulher seria mais suportável a idéia de que o avião caísse. Por quê? Porque tiveram uma mãe no passado que, provavelmente, nos momentos de não-integração, de desespero, os abraçava. Só isso, entretanto, não basta. É necessário um segundo momento, que é a entrada de um terceiro na relação: a entrada do pai. Depois desse momento inicial, de fusão mãe-bebê, é necessária a entrada de um terceiro, o pai. Quem faz o nascimento biológico da criança é o obstetra. Quem faz o nascimento psicológico da criança é o pai ou quem exerce a função paterna. Pelo IBGE um terço dos pais não está em casa. Mas é necessário esclarecer. A função paterna, a mulher a pode exercer, e a função materna, o homem pode fazer. Aliás, a primeira função do pai é cuidar da mãe e do bebê como se ele fosse uma boa mãe. Então, a primeira função do pai é ser uma boa mãe. Depois, ele separa a mãe do bebê, permitindo que o bebê exerça sua autonomia, seduzindo a mãe de volta para ele. O pai tem que ser um grande sedutor, sabendo que depois que a mulher tem um filho nunca mais vai amá-lo como antes, pois parte do amor fica no filho, O pai tem que suportar isso, colocando nesse vazio que se criou o amor parental. Isso não é fácil. A mãe pega a criança na horizontal, o rostinho da criança voltado para o rosto dela. O pai pega a criança na vertical, com o rosto da criança virado para o mundo. E o pai tem um brinquedo, o de jogar a criança e a mãe muitas vezes diz: não faz assim, o pescocinho dele é mole. E se a mãe insistir muito, o pai pode dizer à mãe o seguinte: “não, eu vou fazer isso, mostrar o mundo para o meu filho, senão ele vai terminar que nem tua irmã ou o teu irmão, que os teus pais não mostraram o mundo para eles e olha o que deu esses cunhados que eu tenho!” Sempre que vocês falarem mal de um cunhado vão acertar, pelo menos um pouquinho.
Sobre a atenção e o olhar Uma das coisas mais importantes para o desenvolvimento da criança é o olhar da mãe para o bebê. Existe um filme que vale a pena discutir com os professores, que se chama Janelas da Alma, um documentário do David Martins sobre o olhar. Para tomar o tema da atenção, o que ajuda organizar a atenção de um bebê? É o olhar da mãe no olho de bebê. A função espetacular do olhar da mãe. Se a mãe não olha o bebê no olho do bebê, o bebê olha para a lâmpada, olha para a janela, olha para televisão. A atenção é organizada na atenção que o adulto presta à criança. Por outro lado, em segundo lugar, o olhar do adulto dá uma satisfação. Os analistas dizem “libidiniza a criança”; ou seja, dá auto-estima e amor próprio, através do olhar. Não gosto muito de usar datashow. Por quê? Porque geralmente quando a gente vai usar datashow apagam a luz e as pessoas começam a olhar a imagem e não a mim. Quando eu sou aula, eu gosto de olhar no olho de quem me assiste. Acredito que esta experiência de podermos olhar um no rosto do outro promove uma identificação recíproca. Essa identificação pode ser fundamental no trabalho com as crianças em geral, principalmente com os pequenos. Isso que é vínculo. Brincar. Quando o bebê de 18 meses começa a andar, ele está andando e se volta para a mãe. Ele quer ver se a mãe está ali; se aparecer um gato ou uma pomba, a mãe vai protegê-lo, mas ele quer ver outra coisa. Ele quer ver o olhar da mãe. Se ele se volta para a mãe e a mãe olha com um olhar de encorajamento, de alegria e de satisfação, vendo o desenvolvimento do filho, a criança continua andando. Se o bebê ou a criança pequena olha para mãe e a mãe tem um olhar de angústia, de medo, a criança volta correndo para ela. A professora tem que ter uma habilidade muito grande de fazer essa separação, entendendo o quanto nós sofremos com a independentização dos nossos filhos, não só os bebês, mas inclusive os adolescentes. A partir do que Descartes escreveu, “Penso, logo existo”, Winnicott, um psicanalista inglês, disse: “Olho, sou visto. Logo existo”. O que nós estamos falando de olhar significa o sustentar o sonho que a pergunta refere.
Função dos pais e do professor Pai e mãe não são “amigos”, cúmplices, não são da mesma faixa etária. Eles têm que transmitir uma experiência aos filhos e a transmissão dessa experiência significa muitas vezes dizer não; não abandonar a condição de adulto. E atritos existem muitos. Ser pai é muito mais que ser amigo; pressupõe amizade, obviamente, mas não se reduz a amizade. É muito mais complexo. O professor também é convidado a ocupar um lugar de pai e mãe, embora sua função seja pedagógica. Por isso, a função de professor também é diferente da de amigo. O professor não pode usurpar o papel dos pais, o que não significa que muitas vezes ele seja levado a exercer funções parentais. Ajudando, por exemplo, a criança na entrada na sala de aula, fazendo esse corte entre a ligação forte entre o bebê e sua mãe, entre a mãe e o bebê. Na sala de aula, na passagem do último século, como já apontei, os educadores não só serão chamados de tios e tias, mas serão solicitados a exercer funções maternas. As famílias, perplexas, terceirizam para a escola, tanto a escola particular como a escola pública, cuidados parentais e, mais, a escola talvez seja a última chance que essas crianças tenham de encontrar um ambiente favorável ao desenvolvimento. A escola deve fazer isso sem usurpar o papel dos pais, absolutamente. Por exemplo: vamos supor que uma professora disse para a mãe: “Pode ir para casa, deixa teu filho entrar aqui”, - ela está exercendo função paterna. Quando a criança está dispersa no fundo da sala e a professora diz: “Senta aqui comigo”, está exercendo a função materna. Quando a professora da pré-escola ou da creche diz à mãe: “Deixa teu filho comigo”, ela separa a mãe da criança pequena. E a mãe se ressente com isso. A mãe é capaz de chegar em casa e dizer: “Eu não sei nada dessa professora, mas alguma coisa me diz que ela não é confiável”. Ou seja, é uma mãe que foi separada do filho. E os mamíferos, principalmente os humanos, têm uma relação muito estreita com seus filhotes. Eu diria que a professora da creche, a cuidadora da creche, tem que ter uma habilidade muito grande para deixar vem claro a essa mãe que não é uma competição, que ambas estão juntas. Isso pode tranqüilizar o bebê, a mãe e a professora. O lugar de professor é o lugar do pedagógico, do educativo e daquele que tem coisas a transmitir desse lugar e o de colocar limites.
Sobre a curiosidade e desejo de conhecer Imaginem que uma criança, na parede da casa, da sala, recém-pintada, pega um pincel e faz um desenho. A primeira representação da figura humana. E diz, chamando o pai e a mãe: Essa é minha mãe. Quando alguém fecha o círculo, significa que é capaz de conhecer dentro e fora, interno e externo, um e o outro. É capaz de começar a compreender de maneira bastante significativa as regras de convivência. Na parede da sala recém-pintada ou na parede da classe é necessário colocar limite. Sempre que houver dificuldade sobre o que fazer, deve-se pensar sobre o que não deve ser feito e por exclusão chegamos perto daquilo que é mais razoável de ser feito. Primeira coisa a não fazer: usar a violência. A violência é errada, por exemplo: “A próxima vez que tu fizeres um desenho desse vou te arrebentar a pau, tu nunca mais vai repetir”. A segunda coisa: encher de culpa a criança. A culpa seria o seguinte: “Tu sabes o quanto papai e mamãe te ama, mas sabes quantas horas nós trabalhamos para pintar essa parede e tu fazer essa sujeira? Vai para o quarto, quando tiveres te arrependido, pede perdão e nós te amamos tanto que vamos te absolver desse pecado”. Terceiro: Desqualificar o outro. A desqualificação é o seguinte. A criança diz muito contente: “Essa é a mamãe!” (desenho do boneco A da figura 3). Aí o pai ou a mãe diz: “Isso aqui é a mamãe? Não tem pupila, não tem os cílios, não tem sobrancelha. Isso é nariz que se faça? Não tem boca, não botou orelha, não tem os cabelos da mamãe. Não sabes que a mãe tem 5 dedos? Vai ver se não sabes nem que mãe tem mão. Isso é vestido que se faça? Não fez os pés da mamãe, só desenha palitinho. Põe linha de terra que professora gosta de linha de terra”. (Desenho B, sobreposição sobre o desenho A da figura 3). Quando alguém faz isso, destrói a auto-estima, destrói a criatividade e destrói a espontaneidade, que são três funções do desejo de conhecer. São três funções ligadas estreitamente à curiosidade. Quando nós destruímos a capacidade para o desejo-de-conhecer (pulsão epistemofílica), como no exemplo anterior através da violência, da culpa, da desqualificação, destruímos a auto-estima, a criatividade, a espontaneidade: a curiosidade é atingida. Isso que algum doutor vai chamar de função epistemofílica. A função que nos leva ao desejo de conhecer. É muito fácil destruir o desejo de conhecer do outro. Só podemos ficar atentos a isso, na sala de aula, se estivermos olhando as crianças, subjetivando, conhecendo-as pelo nome, conhecendo a história dessas crianças, historicizando as crianças. Enfim, evitando o que na modernidade nós identificamos como des-subjetivação, des-historicização. Por exemplo, em Porto Alegre, numa escola do município, há um trabalho de subjetivação e historicização das crianças em que eles trazem retratos, objetos dos seus antepassados. Estudam os locais de migração, da pequena cidade do campo para Porto Alegre, estudam um pouco as crianças. De onde vem o nome? Nenhum de nós leva um nome sem que nisso esteja uma fantasia dos pais. Imaginem alguém que se chama César Augusto – é hipotônico e bem pequenininho? Outros levam metade do nome da mãe, metade do nome do pai. Outros, como falta de criatividade dos pais, levam o nome do santo do dia. O meu nome, por exemplo, meu sobrenome Outeiral, surgiu assim: os portugueses vinham lutar na fronteira da Espanha. No Rio Grande do Sul, os portugueses e espanhóis eram trazidos como militares do século XVIII. Então, meu antepassado desceu na primeira cidade do Rio Grande do Sul, num forte que havia lá na fronteira, e perguntaram para ele: “Como é o teu nome?”. E ele disse: “Manoel”. “De onde vens?” “Venho do outeiro”. Morro em Portugal pode ser chamado de outeiro, como o outeiro da Glória. Ele morava em cima do morro. “Então vai se chamar Manoel Outeiral”, disse o recrutador. Passou a se chamar assim. Um outro, que era pescador lá na costa de Alemanha, passou a se chamar, quando foi para a cidade, Fisherman, o homem que pesca. Cada um de nós tem uma identidade no nome. É importante trabalhar isso com as crianças. Os afluentes do Amazonas, não se preocupem, felizmente eles vão esquecer brevemente todos os afluentes decorados. Assim como ler Dom Casmurro só tem sentido se se discute na sala de aula o que é uma mulher com “olhar de ressaca”. O que é isso numa mulher? Isso é o que interessa. Para concluir, proponho um aforismo de Nietzsche: “O que enlouquece não é a dúvida, é a certeza”. Isso é verdade. Se eu for ao hospício e o meu paciente disser: “Outeiral, te comporte frente a mim como um imperador que sou: Napoleão Bonaparte”. Ao ouvir isto, escrevo no prontuário do paciente: “O enfermo não evolui bem”. No outro dia, se a enfermagem me informa: “O paciente está muito mal, doutor!”. E o paciente, apavorado, me diz: “Doutor, eu li que Napoleão Bonaparte tinha 1 metro de 52 e eu tenho 1 metro e 90. Será que eu não sou Napoleão Bonaparte?”. Então, escrevo no prontuário: “Paciente evolui bem, melhorou o prognóstico. Tem dúvidas em relação ao delírio”. Acredito que, para exercer a dura tarefa de educar, nós devemos abandonar a idéia de que somos Napoleão Bonaparte, suportar a incerteza, a dúvida de não saber e, na nossa prática cotidiana, ter confiança suficiente em nós mesmos. E, como dizem os versos do Antônio Machado, o poeta espanhol: Caminhante, não há caminho, caminho se faz no caminhar. |