Desenvolvimento Sexual do Adolescentes

ADOLESCENTE -  SEXUALIDADE - AFETIVIDADE

Alberto Scofano Mainieri, Phd

Médico pediatra e Hebiatra

Prof.  Depto. De Pediatria e Puericultura

Faculdade de Medicina - UFRGS

Fatores Envolvidos

 

Neurológicos

No momento em que estamos tentando entender as atitudes e comportamentos dos adolescentes, devemos considerar em que estágio ou grau de desenvolvimento neurológico ele se encontra. A maturação completa da nossa capacidade de entender, julgar e encontrar soluções e caminhos adequados só é atingida próximo aos 15 anos de idade, na maioria das pessoas.

A área do cérebro responsável pelo nosso pensamento crítico (juízo crítico) é o lobo frontal. Esta área é a última que atinge sua maturação completa, que ocorre por volta do 15 anos. Sendo assim, antes desta completa maturação, nossos jovens ainda dependerão de adultos responsáveis para definirem o que pode ou não pode ser feito.

 

Físicos

Enquanto as mudanças emocionais podem ser influenciadas (antecipadas ou retardadas) pelo ambiente externo, os aspectos físicos são totalmente independentes. São todas as mudanças no corpo que impulsionarão a criança, queira ela ou não, para a adolescência e por fim para a vida adulta. As sensações que surgirão não estarão sobre o controle da família, da sociedade nem a mercê dos tabus e exigências do grupo ou do meio. Da mesma forma, as modificações físicas não seguirão o desejo do adolescente nem os perfis estabelecidos como padrões do belo ou satisfatório.

Sendo assim a criança deverá ir se adaptando ao seu novo corpo e aprendendo a conviver e a lidar com ele. Tanto poderá se sentir satisfeito como poderá não aceitar as mudanças e formas que estão se delineando. Nesta etapa, quanto mais informações tiver sobre o normal e sobre as variabilidades entre cada um, mais poderá se sentir normal e satisfeito.

 

Familiares

Na prática, toda família realiza a educação sexual de suas crianças e jovens, mesmo aquelas que nunca falam abertamente sobre isso. O comportamento dos pais entre si, a relação com os filhos, os tipos de “cuidados” recomendados, as expressões, gestos e proibições que estabelecem, são carregados dos valores associados à sexualidade que a criança e o adolescente apreendem.

Por muito tempo a família desempenhou o principal papel no processo de educação de seus filhos e, embora continue exercendo grande influência na formação moral de crianças e adolescentes, a família vem perdendo bastante sua função de principal educadora dos filhos.

Primordialmente, a família é uma agência de controle social sobre seus membros. Nas últimas décadas a estrutura familiar vem sofrendo grandes transformações, em decorrência das mudanças sociais e culturais ocorridas, na busca de adequar-se à nova realidade social globalizante, onde o acesso às informações tem sido alvo de muitos conflitos de gerações, muito embora a contestação de valores e normas sociais pelas gerações mais jovens seja uma característica geral do indivíduo jovem.     

Em relação à educação sexual, o mais adequado é que seja começado no lar, antes mesmo que a criança ingresse na escola, durante o seu desenvolvimento, paralelamente aos ensinamentos dos demais aspectos da vida. Na adolescência, por conta de todas as mudanças psicossociais e físicas e o interesse pela sexualidade, estas orientações precisam ser mais aprimoradas.

Na realidade, o que se observa na maioria das famílias é o surgimento da preocupação com a sexualidade quando a criança está chegando à puberdade ou já a atingiu. A educação sexual, deve ser conscientizada muito antes que os filhos cheguem à adolescência. Na educação sexual dos filhos não são importantes somente as respostas adequadas às perguntas, mas especialmente sabermos acompanhar a evolução da sexualidade, desde a mais tenra idade, procurando compreender as diferentes fases e, principalmente, não interferir com atitudes impróprias.

Como em todos os aspectos da vida, a criança aprende mais observando e copiando as atitudes dos pais ou figuras substitutas do que por informações tiradas de manuais ilustrados ou através de frases preparadas, obtidas em textos científicos. A adequada educação sexual dos filhos depende fundamentalmente do grau de superação, por parte dos pais, dos tabus que cercam o comportamento sexual humano e da falta de conhecimento - que a maioria dos adultos têm - de muitos aspectos de sua própria sexualidade.

Como célula básica, a família tem influência na aprendizagem social e no desenvolvimento da personalidade. É onde se recebe as primeiras informações e mensagens verbais e não verbais na área da sexualidade.

Cabe a família imprimir o seu estilo, solidificar os seus costumes e princípios de forma que a criança cresça sobre este enfoque. Isto lhe conferirá uma base mais sólida que ele usará e se baseará, mesmo que venha a mudar ou adaptar ao seu próprio estilo na adolescência.

 

A Cultura e meio social

Desde os primórdios da humanidade, a sexualidade é parte essencial da vida do homem. Também, desde o seu surgimento, o ser humano se depara com a necessidade de conciliar a si próprio com o mundo real (social, cultural, econômico e familiar) em que está inserido. É na busca de administrar esta dupla polaridade que surgirão os símbolos, os conceitos e preconceitos as normas e mitos.

A sexualidade é o assunto central nos mais diversos tratados, atuais e milenares, que buscam conhecer e entender a origem e o comportamento humano. Ela sempre foi vivida e pensada de diversos modos, dependendo da cultura, e pode ser estudada sob vários ângulos.

A civilização babilônica (nosso ancestral cultural mais antigo) cultivava o amor sensual e se orgulhava disso. Já, na Grécia antiga, a pederastia (relação entre homens maduros e jovens) ocupava lugar de destaque na sociedade e tinha a função de transformar o jovem em cidadão da Pólis. Denominada de homofilia por alguns estudiosos, essas relações evoluíam para a amizade (philia) entre os mais velhos e os jovens adultos e não têm o mesmo sentido de homossexualidade como a entendemos hoje.

Segundo historiadores, foi o Cristianismo que introduziu a noção de “pecado da carne”, embora desde a antigüidade já houvesse a exortação ao domínio de si e dos prazeres, como entre os espartanos. Ainda hoje é possível encontrar na sexualidade e nas práticas sexuais sinais legados pelo cristianismo para a história da civilização ocidental, associados a interditos (proibições), como a noção de culpa.

Os séculos XII e XIII foram marcados pela moral sexual do mundo cristão porque, nessa época, as normas se fixaram em três direções: o pecado; a separação entre clérigos e leigos; e o casamento. O matrimônio surge como uma concessão, um remédio para tratar o ardor do desejo sexual. Disse o apóstolo Paulo aos coríntios: “É bom para o homem abster-se da mulher. Mas, por causa das fornicações, que cada homem tenha sua mulher, e, cada mulher, seu marido.” (I Cor, VII, 1-2) Toda a Idade Média é marcada pela noção do pecado. A “Era Vitoriana”, no século XIX, durante o reinado da Rainha Vitória na Inglaterra, ficou bastante conhecida pela rígida repressão das práticas sexuais, acompanhadas de intensa valorização da vida familiar.

Já na segunda metade do século XX, assistimos nas sociedades ocidentais a uma verdadeira revolução nas relações homem/mulher e no papel social feminino. A introdução da pílula anticoncepcional no mercado, na década de 60, propicia a separação entre ato sexual e procriação, trazendo importantes transformações, como a liberação da mulher em relação à gravidez indesejada e a possibilidade da conquista de maior igualdade em relação ao homem.

Os tabus têm origem em diferentes épocas e culturas: o incesto, por exemplo, tem ligação com a melhoria biológica da espécie; já a exigência de preservação da virgindade feminina antes do casamento aparece na sociedade ocidental em um momento de mudança político-econômica, em que a propriedade privada ocupa lugar de destaque no campo social. A transmissão de bens materiais e de propriedades deveria se dar unicamente aos descendentes legítimos (a virgindade da mulher, ao se casar, e a fidelidade ao marido seriam a garantia disso).

Sendo assim é fácil entender como a cultura irá conduzir a forma de se vivenciar a sexualidade. Em cada época ocorrem novas adaptações

 

Pessoal

Social

A mídia

O papel ou influência que a intensa exposição da sexualidade pela Mídia pode ter no comportamento das crianças, vem sendo alvo constante de discussões pela possibilidade de estar abreviando e erotizando a infância, com o surgimento precoce de manifestações de sexualidade.

Na atualidade, a divulgação repetitiva pela mídia de corpos magros, longilíneos, esbeltos, de pele branca, cabelos loiros e olhos azuis, associada ao consumo de produtos, de forma latente ou explícita, promove uma idealização desse tipo físico corporal, relacionando-o aos ideais de beleza, saúde, felicidade e ao poder de atração sexual.

Esses modelos - cujo padrão estético não corresponde ao tipo físico mais freqüente em nosso país - podem contribuir para a construção de uma auto-imagem negativa para aqueles que não se enquadram nesse padrão veiculado pelas propagandas. As crianças e os jovens podem se sentir “feios” e, consequentemente, diminuídos nas possibilidades de auto-aceitação e auto-cuidado, quesitos tão necessários para a busca de prazer nas relações afetivas.

Essa insatisfação tem como conseqüência, por exemplo, o aumento de distúrbios alimentares (como obesidade, anorexia, bulimia) entre mulheres adolescentes em vários países do mundo. Ou, ainda, o incrível recorde brasileiro de cirurgias plásticas estéticas. Sabemos que são padrões culturais que estabelecem o que se considera belo ou não, e isso varia em diferentes momentos da história e em diferentes culturas. Já houve época em que as “carnes fartas” das mulheres é que eram valorizadas esteticamente.

A força dos meios de comunicação na formação de hábitos e conceitos no campo sexual pode ser avaliada pelas seguintes situações:

Em apenas quatro segundos, um site de busca na Internet apontou três milhões de links a partir da palavra "sexo", 294 mil a partir da palavra "pornô" e 140 mil a partir da palavra "erótico".

As músicas de maior sucessos entre jovens expressões como "rala a xeca", "este pinto não é mole, é safado" e "me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém".

Numa propaganda de carro, um garoto comenta com o pai, em tom malicioso, sobre o "air bag" da vizinha; em outra, a gota de cerveja desce redonda pelo corpo da loura e uns desenhos animados pulam de bunda em bunda em uma praia brasileira em alto clima de verão e sensualidade.

Em uma recente novela de grande audiência, na busca de ganhar dinheiro, uma jovem personagem é estimulada pela mãe a pedir para uma amiga roubar camisinhas usadas do lixo do banheiro de um rico advogado para fazer inseminação artificial. Tem o filho, faz o exame de DNA e ganha direito de pensão na Justiça. Termina feliz, com um bebê no colo e a procura de um outro "amor bem-sucedido".

No entanto, a mesma mídia do apelo e da banalização do sexo mostra sua outra face: também informa, até educa.

Um dos jornais lidos traz caderno especial sobre sexualidade na adolescência, abordando o tema de forma clara, equilibrada e responsável.

Na TV, em um dos canais abertos, um programa de debates mostra as últimas estatísticas do HIV e abre espaço para discussão com especialistas.

No intervalo do esperado último capítulo da novela anteriormente citada, a maior emissora do Brasil exibe vinheta do Ministério da Saúde: não vacile, use camisinha.

A contradição é evidente. De um lado, o sexo banalizado, a mulher objeto, o prazer imediato, o sensacionalismo e a superexposição do corpo. De outro, o sexo natural, bonito, que pode ser associado à prevenção, ao amor e ao carinho. Para o jornalista e antropólogo Geraldinho Vieira, que tem se destacado em vários países por seu trabalho pioneiro em jornalismo social na área da infância e adolescência, a mídia tende a setorizar-se diante desta contradição. "Há a mídia de entretenimento, que dá espaço à apelação e aos reality shows e, por outro lado, há a jornalística que tem procurado trabalhar o tema de forma cada vez mais responsável", afirma. A jornalista Patu Antunes, da ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), concorda. A agência faz análises de todas matérias publicadas sobre crianças e adolescentes por 48 jornais e dez revistas de maior tiragem no Brasil

"Ou a imprensa erotiza e pressiona o adolescente para que baseie a sua vida sexual nos modelos da publicidade que excita, ou defende um discurso professoral de que os jovens devem adotar um estilo de vida saudável, cuidadoso e responsável", defende Patu. Para Vieira, é preciso encontrar um meio termo.

"A mídia não deve ser excessivamente erótica, nem excessivamente neurótica. Deve falar de sexo com a mesma naturalidade que se fala da boca ou da orelha, apenas atenta para não banalizar. O problema do tom professoral é que ele sacraliza o sexo. Pode-se gerar uma frustração enorme em um adolescente, que fica cheio de expectativas antes da primeira transa e, depois, descobre que o sexo é uma coisa natural, quase como um espirro", afirma

Assim como um bate-papo com o amigo confidente, a mídia é a terceira fonte de informação esclarecedora sobre sexualidade (46% das citações), conforme mostra a pesquisa "A Voz dos Adolescentes", lançada no início de agosto pelo Unicef e pela empresa de pesquisa Fator OM. Os 5.280 jovens entrevistados em todo o Brasil creditam à família (54%) o primeiro lugar e à escola o segundo.

Comentando as aparentes contradições da mídia que por vezes banaliza e erotiza excessivamente a sexualidade e em outros momentos a trata de forma séria e natural, o jornalista Geraldinho Vieira diz acreditar que a sensualidade faz parte de nossa cultura, sendo por isso saudável brincar ou trabalhar a questão de forma lúdica. "O grande problema é exagerar na brincadeira", explica.

 

A grande questão é definir qual o papel da escola nestas incessantes modificações culturais e sociais a que o indivíduo é exposto. Como responsável pela formação não só cultural mas global do indivíduo, a escola se vê num grande dilema já que é formada por profissionais oriundos desta mesma sociedade relativamente perdida nas questões estruturais e conceituais.