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HIPÓTESES SOBRE ADOLESCÊNCIA Texto retirado do site www.joseouteiral.com Jean-Jacques Rassial Psicanalista menbro da Associação Freudiana Internacional (Paris) , professor titular de Psicopatologia na Universidade Paris XIII, autor de, entres outros, Le Psycanalyste et ládolescente, ed Rivages Payot. Texto originalmente publicado em Lê Discours Psychanaltique n 1 de 1980, publicação da Associação Freudiana Internacinal
1)Utilizar no campo da psicanálise o conceito de adolescência não é algo que não tenha suas reticências. Do lado da prática, a prudência dos analistas em receber adolescentes, na medida em que este período de crise, de movência, seria pouco propício ao trabalho de retorno, après-coup , do sujeito sobre sua própria história, indica talvez uma resistência dos analistas, pois a adolescência é menos uma crise única do que exemplar, que o adulto parece querer esquecer para sublinhar a barreira ilusória que o separaria da criança. Na mesma medida em que a o contato dos adolescentes não é sem riscos aos olhos do Estado, como o mostra a morte de Sócrates. Do lado da teoria, são raros os textos que não reduzem a adolescência a ser apenas o último estágio da infância, ou que não se isolam em uma aproximação empírica, reenviando toda etiologia ao “sócio-cultural”, ao limite do jargão policial. Uma teoria da adolescência somente é possível se o analista aceita expor-se às bordas do discurso analítico, no sentido em que sua posição, com o adolescente, o leva sem cessar ao risco do discurso filosófico.
2) Em direito, o adolescente não conta. Se o direito francês em principio apenas menores e maiores, as exceções que fazer a regra definem uma ambigüidade que perverte o texto jurídico, que funciona somente por limites. De uma parte, por exemplo, a elegibilidade a certos cargos não é contemporânea do direito de votar. De outra parte, a idade de 15 anos implica uma responsabilidade nos três registros: o consentimento sexual, a impossibilidade de plena adoção, a prisão possível. Fora de estatuto pelo receio do qual se servem família e instituições do lado da criança ou do adulto, o adolescente pode fundar, no jogo legal de sua exclusão, no que ele deixa de impossível simbolização, a razão de uma outra lei, aquela do “bando” ou da “seita”, me que se mede a relação entre o limite e o período, duplo aspecto da adolescência.
3) Esta posição no intervalo, o adolescente freqüentemente a evoca a propósito de sua relação com o dinheiro. Enquanto a criança é submetida ao regime do “porquinho”, quer dizer, de uma poupança tendo por origem o presente, e que o adulto por sua vez conta por “lucros”, o que lhe retorna de sua produção na circulação financeira, o adolescente reivindica o direito à “mesada”, excedente quase vestimenta, se não crendo mais na troca do que no presente, ele sabe, e disto ele se serve em sua relação aos outros, que se o dinheiro circula, é para que o sujeito não se desloque. Tentando subverter a economia política, aqueles que “tomam a estrada” ou vivem “à margem” denunciam paradoxalmente o jogo da circulação: eles realmente circulam no lugar do dinheiro. Entre duas leis (a criança brinca/o adulto trabalha), a adolescência é o momento de uma tentação nômade que responde ao anonimato da circulação financeira. A fuga não é apenas ruptura intempestiva do quadro familiar, mas sobretudo crítica da paródia econômica, visada de um lugar, de um não-lugar ( a América de Kafka) onde seja possível, segundo fórmula de Winnicott, “sentir-se real”.
4) Se as sociedades fundadas sobre a transmissão oral preservavam nos ritos iniciático o espaço potencial deste não lugar da adolescência, a violação necessária das leis, figura única de uma passagem no intervalo lega, só pode ser sublimada hoje em dia sobre dois modos, eventualmente complementares: a construção imaginária de um “pré-histórico” ou de um “pós-histórico” e o ato de violência real contra os representantes atuais da lei. É porque ele aparece justamente no momento em que, mesmo sem fundamento, o discurso social mantém-se (o poder), porque ele coloca ordem produzindo sentido, é por isto que a anarquia, sob a forma doce da ecologia ou dura do terrorismo, é o sintoma social da adolescência.
5) Enquanto a morte do pai, fantasma edípico da criança, se resolve na ordem simbólica, em que ele se coloca em jogo pela mímica de um assassinato que assegura a transmissão, o adolescente descobre em um segundo tempo que este pai, que se parece com ele, é mortal, no real, de uma morte “sem causa”, e que esta transmissão se ordena como perda. Sendo absolutamente Outro, diferença radical da qual o inverso é a identificação, o pai, pelo golpe de força de uma semelhança que nenhuma identificação transcendem, mascara ou reduz, cessa de ser o representante único da ordem simbólica. Quando o filho se mede ao pai, o corpo do pai entre em cena, não mais mítico, mas tomado de uma cadeia na língua, e da qual o nascimento e a morte são as pontuações reais. O pai (destituído) é designado, ao mesmo título que o filho, como elo na cadeia das gerações, garantidor provisório e parcial da permanência do Nome na cadeia dos significantes.
6) Tanto o fantasma de uma outra família quanto a linhagem genealógica que agitam a criança, estão em jogo para o adolescente, porque a semelhança introduz a dimensão infinita do tempo e os avós, por sua equival6encia lógica aos pais, podem ser invocados como ponto de fuga da estrutura familiar triangular. Se o pai para a criança ocupa o lugar do Outro, a referência aos avós designa um impossível Outro do Outro, que o pai tenha um pai interditado de designá-lo na origem simbólica. É sem dúvida por isto que a questão de Deus se coloca novamente para o adolescente. Mas enquanto Deus é para a criança mito presentificado por uma marca indelével, batismo ou circuncisão, ele é para o adolescente aquilo ao qual ele tem direito, a saber, o Representante último de uma transmissão sem outro objeto que não o simbólico. Sem outro sentido que o luto de um assassinato. Dito de outro modo, resta-lhe sempre matar Deus, quer dizer, reconhece-lo tal como ele é oferecido então, irrepresentável , excedendo a tradição que o produz, neste lugar deixado vazio no Outro quando o pai se revelou mortal.
7) A semelhança com os pais se descobre como possibilidade do ato sexual que, [para o adolescente, é medido por uma relação impossível entre a repetição e a reprodução : repetição ( em todas as acepções da palavra) da cena primitiva, jogo de mímica de uma diferença com dois termos, dos quais um é representado de antemão como semelhante ao sujeito. Reprodução, quer dizer, ingresso na cadeia infinita das gerações, em que a dimensão simbólica, primordial sobre a expansão imaginária, em que a diferença, não somente sexual mas de geração. Não é transcendida senão pela transmissão do nome. Longe de satisfazer se com a redução religiosa dos dois aspectos, o adolescente compara sua impotência com aquela da criança que ignora que não existe repetição, fora do jogo, sem diferença, e também com aquela do adulto que esqueceu que ele está inscrito apenas numa seqüência, sem outro privilégio sobre seus sucessores senão o que é socialmente definido. A sexualidade genital, uma vez que ela ordena ao mesmo tempo uma diferenciação das gerações, provoca uma urgência de colocação em ato da subjetividade que sutura o hiato entre repetição e reprodução, hiato onde se desfralda a pulsão de morte.
8) O comportamento paradoxal dos adolescentes, suas aparentes contradições não se concebem senão como “ensaios”. Tentativas de repetir pelo suicídio o ciclo real, sem ter tempo de inscrever-se no circuito simbólico da reprodução. Engajamento precoce na maternidade (ou na paternidade) reprodução precipitada sem repetição do casal, desenlace lógico da crise, mas desprovido do desenvolvimento imaginário do amor. Ou então, mas não é oi mito fundador da normalidade, todas as variantes do incesto fraterno. Mas “ensaios” também no sentido de Montaigne, pois na passagem entre o auto-erotismo da criança e a relação de objeto do adulto, a adolescência é o momento privilegiado de uma colocação em ato da linguagem na escritura, sem palavra e sem algo equivalente para além de livro e leitura. Jornais e poemas, ao contrário do Livro enquanto objeto da tradição, são os meios de iniciação do adolescente à carta de amor.
9) Na adolescência se opera um deslocamento do campo pulsional: de uma parte o sujeito põem em destaque sobre seu próprio corpo os objetos parciais equivalentes àqueles do campo do Outro, e, “extrapolado”, reivindica este crescimento, esta excrescência, pela apropriação de objetos que têm função de fetiches (barbeador, sutiã); de outra parte o corpo do outro entra em cena como um objeto sobre o qual os julgamentos estéticos afluem, o que produz um retorno com força, do narcisismo, na oscilação entre a afirmação de unicidade, de originalidade e a exigência de ser reconhecido como semelhante aos outros. De fato, a hierarquia de significantes está para o adolescente menos entre maturidade genital e sinais ditos secundários do que entre o que ele deixa perceber por outros e o que resta secreto. Para a menina, porque o sangue das regras e o crescimento dos seios tomam sentido pela visão do outro, a relação ao outro se dá pelo olhar. Para o menino, porque o signo comunicável da puberdade é a mudança de timbre, a voz ocupará uma posição chave. Isto de que os jogos de sedução dão testemunho, cujo reverso está situado no fato de que o homem, pendurando significantes em nome do Outro, na prova em que é questão da abundância do discurso convincente, de deixar o interlocutor “baratinado”, ficará cego aos apelos do olhar, enquanto a mulher, se fixando como significante ao olhar que ela presta ao outro, será surda a esta voz que lhe pergunta o que é feito de seu gozo.
10) Este duplo referencial pulsional da voz e do olhar permite talvez definir a adolescência como momento, lógico, do après-coup do estágio do espelho, apropriação parcial do olhar e da voz da mãe que reconheceu, outrora, o que a criança viu. O adolescente deve se confrontar, para além de uma morte da imagem, com o fato de que o sujeito não se define apenas em ser (na permanência que instaura o fort-da), mas em ter na medida em que ali se desenrola uma dinâmica da perda do ser. A adolescência é o momento em que a criança, tomando a medida do tempo, que é de transformar o sintoma em sujeito, se apropria como sintoma do sintoma que ele já é no desejo dos pais e que lhe reenviam como seu signo. Momento de apropriação impossível para o esquizofrênico, possuído como ele está, e que desencadeia então o desmantelamento, o afundamento de um sujeito que não ultrapassou o obstáculo do silêncio senão tomando voz de eco da mãe, no momento do estágio do espelho.
11) Porque, reencontrando o caminho filosófico, a demanda do adolescente é, no cerne da questão do Um, ser contado na passagem de uma imagem do corpo à outra. A única posição que ele aceita do adulto é a de Sócrates, mestre e pederasta, em relação ao analista. Sócrates, aquele que não escreve, partilha, no sentido maiêutico, a Verdade, no dom daquilo que ele não tem, com seus discípulos, que ele não engana porque os ama. O analista é , na relação transferencial, sem cessar atirado em direção a este lugar, se ele aceita a interrogação sobre os fundamentos do ser e da letra e não se refugia nem por detrás de sua “maturidade”nem por detrás de um compromisso com a função doutrinal. É somente se o analista admite que esta crise é essencial e sem resposta que ele pode, questionando, autorizar a análise de um adolescente.
12) Pelo que está em causa, o analista reencontra ali algo que diz respeito à sua própria crise de formação: questão do Mestre na seqüência das gerações ; questão de sua identidade sexual na apropriação do desejo do analista; questão da função da escritura/leitura na constituição / destituição do saber, pois é sobre seu desejo que o adolescente põe em causa o analista. As crises com as quais se confronta o dito “jovem” analista não interrogam sem cessar sobre esta crise exemplar da adolescência? E se no quadro da sessão o analista consegue não cair em outros discursos não é porque resta alguma coisa deste momento de questão sobre os fundamentos? Não há ali um reencontro entre a experiência do desêtre para o analista e o por-au-noir que Winnicott designa como passe da adolescência?
Tradução Maria Rosane Pereira
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